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Romance escrito em tempo real

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Camisa Marron

Arlete sempre fez o gênero do “se não entendo, logo, não existe”. Afirmava que vivia feliz assim. Segundo a própria, “para que ficar buscando explicações para o inexplicável?”, até o dia em que o inexplicável desafiou-lhe os sentidos.
Estava ela trocando os lençóis da cama, quando o marido parou no corredor e olhou-a de uma forma desconhecida. Estranhou aquele segundo de silêncio, onde tanto se disse e a camisa marrom, tão bem passada, parecia ter saído de uma tinturaria.
Definitivamente, não foi ela que a tinha passado. Jamais. Para passar assim, precisaria de anos de treino, o que fugia de seus objetivos. Diante daquele olhar, quem se importava em saber quem passara a tal camisa?
Lembrou-se de que a camisa estivera no cesto de roupas sujas. Mas, como pensar nisso agora, diante de um olhar tão convidativo? Queria se fartar, jogar para o alto a mãe que era, a dona-de-casa, abrir, enfim, a jaula dos sentidos. E assim fez. Sentia-se bêbada e todos os outros sonoros e sugestivos proparoxítonos.
Do fim do corredor, ouviu um barulho de água caindo e o som do chuveiro ligado na voltagem mais forte. Tentou lembrar de quem poderia estar tomando banho, já que as crianças não estavam em casa.
Num ato heróico, desprendeu-se dos braços do marido, atravessou o corredor e abriu a porta do banheiro, sem pensar muito no que fazia. Lá estava ele, seu marido, debaixo do chuveiro. Todas as gotas do mundo pareciam escorrer pelo seu dorso. Olhou o cesto de roupas e a camisa marrom lá estava. Voltou ao quarto e o dono da camisa impecável havia desaparecido.
Arlete não conseguiu entender o que vivera. Nunca contou a mais ninguém, senão para mim, já que somos comadres.
Stella Tavares

Extraído do livro: O Adestrador de Sentimentos de STella Tavares

14 comentários:

angela disse...

E fez bem de não contar...rs Pena que foi atra´z do barulho e interrompeu um sonho tão belo.
Bonito conto Stella, vou ter que ler seu livro.
beijos

Sonia Schmorantz disse...

Agora não sei se sonhou com o marido lindo e convidativo numa camisa marron, ou se sonhou ser a melhor passadeira, rsss
Muito bom!
beijos

Déia disse...

Ela bem que podia realizar os 2 sonhos, heim? Se jogar com o marido no chuveiro e amá-lo loucamente... e contratar uma empregada para fazer os serviços domésticos rs

bj

Pena disse...

Genial Escritora Amiga:
Um texto significativo, esmerado literáriamente e fabuloso de sentimentos, encontros e reencontros. Uma viagem extraordinária pela pessoalidade da gente comum com brilhantismo total.
Situações de um quotidiano específico sentido e vivido, narrado de forma admirável e perfeita.
Sublime, amiguinha. Que outra coisa se poderia esperar?
Brilhante. Talentoso. Intenso. Pleno de afirmação genial.
Parabéns sinceros de respeito pela enorme capacidade e qualidades que possui com as palavras que jorram em histórias intermináveis de beleza. Do real e irreal vivido.
Fascinado pelo seu encanto...
Beijinhos respeitadores e grandiosos de consideração imensa.
Sempre a admirá-la

pena

OBRIGADO pela honra da sua amizade que preservo pela sua magia como escritora fantástica e notável
OBRIGADO!
Bem-Haja!

Lídia Borges disse...

"Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida."

José Gomes Ferreira


Um beijo

Everson Russo disse...

O mais louco de tudo foi sonhar na realidade, e num pequeno espaço da realidade o sonho foi perdido, mas foram intensos instantes...belo conto, bela historia...depois desse,tenho que me lebrar de comprar uma camisa marrom...rs..rs..beijos querida e um lindo dia pra ti...

João disse...

Sonhos...
Ainda vou ler esse teu livro.

Bacaninha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mary e Carla disse...

Olá! Fiz uma visitnha e adorei o post! Beijos!
Visite-nos.

O homem e a mente disse...

Droga, acordou. heheheheh

Úrsula Avner disse...

Oi Stella, interessante seu texto que parece um conto com falas indiretas. Obrigada pelo carinho de sua visita. Bj.

Older disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário, será sempre um prazer ver vc passeando por aqui.
ABs

Rosemildo Sales Furtado disse...

Mais um motivo para querer ler o teu livro.

Já mandei um e-mail pra ti com todos os meus dados. Vou retransmití-lo.

Beijos,

Furtado.

Paulo Tamburro disse...

De quantos sonhos, milhões de almas se alimentam?

Nesta ácida realidade do mundo das gripes, epidemias, extermínio das crianças africanas por subnutrição, o fantasma da crise econômica por irresponsabilidade de financistas internacionais, que pensam que investimento é jogar bingo, sonhar é o melhor negócio.

Mesmo que no final do sonho não se resolva negócio nenhum, como neste seu belo texto. (rsrs)

Certo?

Um abração carioca.