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Romance escrito em tempo real

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quarto de solteira

O quarto e ela eram sempre os mesmos. Desde a mais tenra infância, até os dias de hoje. Luzia sempre dormiu no mesmo quarto. Filha única, nunca precisou dividi-lo com ninguém. Mantinha impecável aquele pequeno e perfumado ambiente. Em todas as gavetas, sachês aromáticos e biscuis. Também seu corpo recebia caprichos extremos: sua pele clara, cheirando à lavanda, parecia estar sempre saindo de um longo banho.
Suas amigas foram-se casando e era sempre convidada para madrinha. Comedida, recatada, não pensava mais em casamento. Como as moças de sua época, tinha um enxoval pronto, bordado por ela, com a ajuda da mãe que era exímia bordadeira.
De quando em quando, retirava o enxoval do armário e o colocava ao sol para aliviar o cheiro forte de roupa guardada. Por ela, já teria presenteado uma noiva sem recursos, mas foi pela mãe impedida, pois acreditava que a filha conseguiria um pretendente viúvo ou desquitado, que a quisesse desposar e, um enxoval como aquele era raro nos dias atuais.
Aquele pequeno quarto parecia represar o tempo, naquela casa sem urgências, onde tudo era artesanal, sem conservantes e arroubos. Ali não havia choro, mas, também pouco se ria. As vozes não se elevavam, não existiam sobressaltos, contratempos ou agonias e nem comemorações. Uma vida morna que repelia as mudanças.
Se o tão esperado viúvo aparecesse, Luzia nem saberia o que fazer com ele e talvez nem mesmo ele se sentisse à vontade, diante daquele imaculado corpo e sem expectativas, em meio a lençóis de linho bordado em richelieu e ponto de cruz.

CONTRAPONTO:
Do outro lado da cidade, vivia Jandira, uma mulher que sorvia a vida em largos goles.
Recato não havia e o seu quarto de moça, se é que foi um dia, não deixou vestígios. Jandira parecia já ter nascido mulher feita.
Solidária sempre foi, já que atravessava a cidade, equilibrando um colchão na cabeça para doá-lo a desabrigados da sorte.
Os homens por ela suspiravam. Seu corpo ardente exalava exóticos odores.
Viúvos, solteiros, separados sentiam-se à vontade e seus corpos jamais reclamaram por lençóis bordados em cambraias de linho...

Stella Tavares

(Extraído do Livro "O Adestrador de Sentimentos" de Stella Tavares, publicado em 2007)

20 comentários:

Lilith disse...

Acho que toda mulher quando chega uma certa idade acaba escolhendo entre uma coisa e outra...quando não faz isso a vida se encarrega de fazê-lo...lindo texto.

Jacqueline disse...

A vida existe no texto, a cada linha. Parabéns! Abços, Jacqueline

Helinha disse...

Nossa, ótimo texto mesmo, amiga...

Até mesmo a narrativa de Luzia é mais morna, como se nem um vento passasse...

Já na de Jandira, as palavras têm pressa de chegar, parecem querer se atropelar, e é uma quentura só!!

Parabéns!!

O livro é de contos?? Ou é um romance??

Estive uma semana afastada, cuidando dos meus filhos que estavam com gripe... Sem entrar em blog... Na verdade eles ainda estão tomando remédios e têm resquícios dos sintomas, mas bem leves... Estamos até o dia 07/09 em "isolamento domiciliar", por recomendação médica... mas já melhores!!

Beijos!!

angela disse...

Stella
Já encontrei várias Luzias e Jandiras na minha vida, penso até que tenho um pouco das duas e de outras mais...ainda bem...rsrs.
Linda e precisa narrativa.
beijos

Rosemildo Sales Furtado disse...

É, realmente são dois opostos, de um lado, a Luzia, recatada, ideal para atender aos anseios do coração. Do outro, a Jandira, quenga depravada, ideal para atender os anseios do tesão. É o preto (ausência de cor) e o branco (mistura de todas as cores).

Belo texto, muito bem coordenado.

Beijos,

Furtado.

Livinha disse...

Faz jus a escolha do viver, quando não se busca anseios, apenas se adapta ao comodismo do tá bom do jeito que tá. Se nada se repassa, o tempo nem parece que passa, preso as teias do parecer..
Do outro lado, não se ver apego, distribui, divide e o tempo se ver acelerado cheio de mudanças e novidades surgindo, a vida se torna mais alegre como as flores do campo, se abrindo...
É o reverso da medalha...

Stella, maravilhoso texto o realismo visto de duas maneiras. A vida espelha ao que se posta na frente, tal e qual...

Parabéns!

Bjss

O homem e a mente disse...

A capacidade de observar os vários lados da vida é muito bom, os contrastes principalmente.

Tem também a capacidade de se por no lugar de outra pessoa?

Bom post

Bel Lucyk disse...

Que texto bacana! =)

Marcone França disse...

Ter uma mulher com característica das duas seria uma boa combinação. Os extremos nem sempre é agradável.

Abraço!
Bom final de semana.

Sonia Schmorantz disse...

Hoje um quarto de solteiro é uma opção cada vez maior, é mais cômodo do que ter que fazer escolhas e depois mantê-las...
beijo, ótimo final de semana

João disse...

Instigante!

Letícia. disse...

Eu sou Luzia...
Mas queria ser Jandira.
Quando sou Jandira...
Morro de saudade da Luzia.

Seus textos imitam a vida.
Parabéns!

Úrsula Avner disse...

Oi Stella, não sei se já disse isso mas você denota muita sensibilidade na escrita. Obrigada pelo carinho de sua visita e comentário. Bj.

cristinasiqueira disse...

Oi Stella,

Quanto se passa num quarto de solteira.Quanto se vive numa cama de jandira.
Gostoso de ler.

Com carinho,

Cris

PS_Tem post novo no www.cristinasiqueira.blogspot.com

Luciano Braz disse...

Oi Stella,
Pelo visto este livro é uma ótima pedida.

Esta semana estou lendo " O Futuro da humanidade " foi recomendado por uma amiga e confesso ser muito bom!

Estou iniciando a pouco o acompanhamento sobre seus textos, e ja tenho leitura positiva de seu espaço. Muito interessante mesmo.

Parabéns.

Com sua permissão continuarei lhe visitando.

Um abraço e bom feriado para ti !

Luciano Braz

Pena disse...

Enorme e Genial Escritora Amiga:
Sem palavras...faço-lhe uma vénia de veneração. Escreve, FABULOSAMENTE!
Simplesmente, ADMIRÁVEL.
Possui um dom: MARAVILHA!
Beijinhos cordiais de respeito e imensa estima...
Sempre a considerá-la um vulto fabuloso da maravilhosa, doce e extraordinária literatura.

pena

Adorei!

RaSena disse...

olá, Stella
adorei o texto!
a vida morna, mesmo que organizada e cheia de delicados detalhes mostra-se realmente sem graça - é preciso ter calor, emoção, decisão para a felicidade!!!!
linda semana - bjkinhas....

DIABINHOSFORA disse...

E tanta vezes isto acontece! Quantas não conheço assim, de uma e de outra espécie...é a vida!

Lindo o teu texto e tão realista...

Paula Laranjeira disse...

Deu vontade de saber a sequência...mas sequência quebraria o encanto do não dito...e do sentido pedaço q há em nós e q se liga a estas duas mulheres...
Adorei...

tertulías disse...

Que interessante estes opostos, estas estórias paralelas... e a sua mencao sobre os lencois... quase como que molduras ao redor de um espelho... obrigado querida!