O quarto e ela eram sempre os mesmos. Desde a mais tenra infância, até os dias de hoje. Luzia sempre dormiu no mesmo quarto. Filha única, nunca precisou dividi-lo com ninguém. Mantinha impecável aquele pequeno e perfumado ambiente. Em todas as gavetas, sachês aromáticos e biscuis. Também seu corpo recebia caprichos extremos: sua pele clara, cheirando à lavanda, parecia estar sempre saindo de um longo banho.
Suas amigas foram-se casando e era sempre convidada para madrinha. Comedida, recatada, não pensava mais em casamento. Como as moças de sua época, tinha um enxoval pronto, bordado por ela, com a ajuda da mãe que era exímia bordadeira.
De quando em quando, retirava o enxoval do armário e o colocava ao sol para aliviar o cheiro forte de roupa guardada. Por ela, já teria presenteado uma noiva sem recursos, mas foi pela mãe impedida, pois acreditava que a filha conseguiria um pretendente viúvo ou desquitado, que a quisesse desposar e, um enxoval como aquele era raro nos dias atuais.
Aquele pequeno quarto parecia represar o tempo, naquela casa sem urgências, onde tudo era artesanal, sem conservantes e arroubos. Ali não havia choro, mas, também pouco se ria. As vozes não se elevavam, não existiam sobressaltos, contratempos ou agonias e nem comemorações. Uma vida morna que repelia as mudanças.
Se o tão esperado viúvo aparecesse, Luzia nem saberia o que fazer com ele e talvez nem mesmo ele se sentisse à vontade, diante daquele imaculado corpo e sem expectativas, em meio a lençóis de linho bordado em richelieu e ponto de cruz.
CONTRAPONTO:
Do outro lado da cidade, vivia Jandira, uma mulher que sorvia a vida em largos goles.
Recato não havia e o seu quarto de moça, se é que foi um dia, não deixou vestígios. Jandira parecia já ter nascido mulher feita.
Solidária sempre foi, já que atravessava a cidade, equilibrando um colchão na cabeça para doá-lo a desabrigados da sorte.
Os homens por ela suspiravam. Seu corpo ardente exalava exóticos odores.
Viúvos, solteiros, separados sentiam-se à vontade e seus corpos jamais reclamaram por lençóis bordados em cambraias de linho...
Stella Tavares
(Extraído do Livro "O Adestrador de Sentimentos" de Stella Tavares, publicado em 2007)